desde então
todas as noites
o vidro espatifou no chão
o estilhaço repetiu-se
noite a noite
imputou a busca torta
na qual a chuva veio
gelou
apaziguou
como leite derramado
toda nossa memória surgia ali,
numa casa em que chuvia rio abaixo
sempre...
chovia sempre naquela casa,
pois as moças beijavam-se entre as pedras
os morcegos iludiam durante a noite
os amigos dançavam ao som de zoroastros
Sim! Os amantes da experiência!
mas acorde,
isto não é um sonho .
a casa morta
em que a música selou a infância e a velhice
não tinha teto
não tinha nada
não existia mais nem aos bobos...
e assim o silencio e o vazio preencheram todos os sentidos
como a água que agora corria sem ruir
e veia abaixo
sem chiar
amor-tecia...
mas mesmo assim
como uma bomba
anunciou-se um estrondo em relâmpago,
um bradar da lua e marte, que laranja e azul,
entre as nuvens mostrou seu olhar:
dança que o corpo escorre!
derivei,
e a noite tratou logo imputar a tarefa:
danças comigo? úmido contigo?
em reverência
logo cadenciei
mas da pirueta escapou o passo
e longe rindo ela se distanciou...
nada
vazio
e o vento
a chuva molhou de novo meu caminho
as gotas gelaram como cacos
aços
escorreguei dançando um tango sozinho
e mão estúpida inadvertidamente derrubou e partiu...
com raiva e admiração recompus aquele estilhaço
que como o corte, garoou vermelho...
será que desde então é tarde demais?
o tempo sobre as feridas não cicatrizou
o mordente de pátina não sustentou.
assim,
sozinho,
adormeci profundamente,
e abracei o fragmento amortecido.
.