cripta maldita és esta que me rodeia
quero romper-te em flores murchas
em lápides desgastadas,
em cadáveres que não apodrecem
e súbitos ao mundo voltam a passear
sim,
somos estrangeiros de morte e vida,
incapazes de fazer beleza,
romper a morte,
sujar as mãos.
mas morte...
eis que a vida entedia...
e cada passo um procurar de faíscas,
um promulgar de utopias
trôpego e torto
só pra continuar andando,
marchando...
Pra onde?
Em busca do jardim antes da morte lá esta a beleza
flores belas,
formas ordeiras como engrenagens
Aí, para...
Olha,
Olha e deseja
O cheiro
A cor
O caule
As pétalas
As pétalas
Que bela
Eu quero
Eu
Eu pego
E arranco
E cheiro
E toco
E pulso
E mato
Mato
O mato todo em mão de sangue cheirando a desilusão...
Valera a pena?
Quem morreu?
A flor ou eu que rompi com a morte e agora cheiro?
eu que me entrego pra sabores sentidos
e soletro tato a tato cada entregar-se?
eu que morto me sinto realizado
fato
todo melado
folheado
cheirando
com gozo
com cristais de vida incrustados por minha pele
boca
baço
acre
cu!
Mas morte,
nenhuma beleza basta mais,
É preciso gritar pra que escutem os gemidos atrás das portas
Não há silêncio,
não há silêncio!
Há estrondosa vida
nesta moribunda a caminhar
e a encontrar pessoas tristes
Mancas
Mendingas
As melhores pessoas do mundo!
os mais famintos por vida,
de palavra sem lugar.
Imparcial a tudo isso? Ao gemido lá fora?
Ao cheiro da flor? A beleza ruidosa?
Não morte não me venhas com falcatruas
que o hoje o cheiro é o meu.
É o meu cadáver que apodrece
e não existirei mais como cadáver,
mas serei movimentos em minhocas,
tempo em eucaliptos,
sutilezas em amores profundos.
Sim!
“eu existo!
Sou irrecuperável!”
Eu rompo a vasta vida
e queimo minhas mãos.
Não paro
Não paro
Não posso parar
Parar e ver tudo continuar igual
Sem graça sem teta sem taça
Tudo parado
como criança na mamadeira do suicídio.
Anunciaria eu mais um suspiro?
Mais uma torrente de palavras?
Não,
poupo-o caro leitor.
Vá viver que a morte se esvai.
Vá calar-se em sua rotina ruidosa.
Vá casar-se, rogar a deus e
à constituição federal.
Seu túmulo não será mais seu quintal.
Nem sua beleza será mais seu arranjo floral.
retorno para minha cripta
sacrílego profanador do dia
cabeça pensa
em busca de descanso em paz...
.