sou nada e quase prosa

voce que me lê também não o é

o esquecimento mútuo é inevitável

seguimos imersos na mistura de sonho e memória

descemos rio, letra, tempo abaixo na espiral que deriva.

3 gerações – quem são meus antepassados?
100 anos – quantos milhões de desconhecidos?

Chuva, gelo, sol , bombas tudo apagam,
resta o resto.

como folhas de uma árvore
nascemos com a luz
voamos em redemoinhos,
furamos o barro,
boiamos no rio
e ao fim,
dissolvemos.

isso tudo você também
mas principalmente eu

pois eu
mais que ninguém
sou nada

minha vida é cicatriz
meus erros são a regra
meus amigos nada duram
minha família não existe
minhas obras são horríveis
nem quero ter filhos pois sei que eles nada serão.

“danada! O que importa é viver, seguir!” – diz o entusiasta extasiante.

Pois que morra cansado de ser feliz,
feliz eu nunca serei,
mesmo tendo que ser até a morte.

resta a angustia,
desespero, tropeço,
atropelo violento
do girar da terra que em roxo e musgo
dá vertigem e destrói.

Sou nada

mas nem os históricos, nem os famosos de 15 minutos
essas estrelas
elas são puro passado frágil de memória e calor
não são perenes
nenhuma constelação.

Sabe qual é o seu signo?
Única previsão?

a morte, o sofrimento, o fim.

assim vemos que nada importa
se vai melhorar
se vai piorar

tudo nos é indiferente.

De que valhem estas letras?
E este sentimento que nos toca?
E se nem o sentimento vier?

o câncer corroe as estruturas
e o sêmem da terapia química nada mais semeia
e mesmo diante daquilo que mais preenche
daquilo que menos assusta,
aquele absurdo da energia que nos faz abrir os olhos
logo, cessa, cerra, e desaparece.

Mas existe o eletro choque, ressuscita!
Cardiograma, rivotrill, placebo, adrenalina

Sou tudo de novo!
Vida eterna! Me cure!
Eu quero tudo! Quero ser feliz!
todos os prazeres, todos os cheiros
as emoções, os batimentos viscerais do coração
que palpitam até a testa jugular
sangue jorrando, lagrimas de sal
vestidos de cetim, confetes
carnes, frutas, os verdes, tudo!
Quero o melhor sexo,
as melhores poesias, melodias,
os melhores livros, as melhores historias,
os sorrisos, dinheiro, os amigos, a família, meus filhos!
Ah! Meu filhos serão lindos!
Grandes, fortes, sábios, astutos, importantes!
Eu desejo tudo isso!
desejo para você também!
O cálice cheio deusa da fortuna!

Sou tudo!
sei disso, e você também.

mas que ventos são esses que a roda me apresenta?

até agora nada de remédio, de paraíso, de felicidade.

a serpente me engolfa o pescoço e estrangula a esperança
espreme sem injetar o veneno
e lentamente os olhos viram
o torpor invade a pele pelas narinas
a baba em fio esquenta as escamas,
o mijo que escorre pela roupa
e as tripas pelas frestas
enchem o cálice não de vinho mas de corrimento.
e passados alguns suspiros de agonia,
a morte.

Lentamente a serpente se aproxima da cabeça pendida e úmida de suor.
Roça suas narinas no couro cabeludo
abre a mandíbula e engole
os ácidos então corroem tudo
e logo voltamos de onde partimos, o nada.

tempos passados, o reptil bota um ovo
Húmus, ossos, dentes, pelos, sem nenhuma memória
Nenhuma palavra
envolvidos por uma casca branca vimos semi-vivos!

Isso principalmente eu, mas acho que você também.

Reconhecendo o limite de tudo que aqui me propus a dizer
sei que nada digo
de novo
que me torne astuto, soberbo, importante!
pois é tudo vão e sem poesia
tudo falsidade e orgulho.

sou nada
assim qualquer
e agora lhe poupo dos meus morreres pois deves ter mais o que fazer nesta vida.
Não lhe julgo, pois condenados não tem autoridade.
Sou nada
e você merece muito.

você é tudo.
para sempre.















.

Seguidores

Pesquisar este blog