Amarelo dela


Uma abelha amarela pousou na janela dela.
Primeiro pareceu que se ferrou como quem cai
Mas depois logo pôs a esfregar-se...
- usava as seis patas, acaraciava a si mesma,
o ferrão roçava o parapeito.
Aproximou-se da borda e olhou a bela fixamente...
Não demorou voltou a cuidar de seus carinhos,
distanciou-se da borda e se aproximou da face dela...
Chaqualhou alegremente o corpo e saiu voando em direção ao sol
Sumiu no amarelo dela...

















.

barras de repetição (quanto terminar voltar imediatamente ao começo)

II: vai
    se não
     dai
      pois não 
       sai
        cada 
          pai
           mostra
             cai
               volta

                 vai
                   se não
                     sai
                       sem saber
                            cai
                                 nãocai
                                      prata
                                             cais 
                                                    aisdeespada
                                                            roça 
                                                                      anais
                                                                                  vai     não :II
                                                                                    
















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lua cheia


olhos na lua e ela me grita :

"não olhes mais pra mim!" -
deixando escorrer um pranto prata
como piscar de um lado escuro
oscilando a maré da vida destes olhos que a contemplam




















.

o último desejo da manhã



acordara cedo para ver a lua ainda no céu
mas de nuvens se fechou seu horizonte.

o frio que lhe cortou a espinha 
jogou na cama a sua condenação:
não mais falharia em suas metas! 

não houve suspiro café que fizesse 
sua suspensão já afundava nas amarguras
seu carinho tornara-se cravo sem miolo
sua respiração golfada sem saída
sua dedicação perdia-se nas redes sociais

ainda lhe restava a melodia
que de nota em nota afastava-lhe o hospício
e tentava com canto triste fazer estimular o desejar

já era tarde ...


















.

não passa


não teve jeito

seu amor não diminuía por ela
já sabia das dúvidas dos pleitos das disputas
e mesmo assim nada parecia passar

se perguntava noite e dia:
será que existe amor em mim? 

pobrezinho,
não via que depois de passada a guerra
jamais seriam os mesmos
não via que a vida oferece poucos caminhos
cabelos: ou se agarra ou se afunda

tentou tomar jeito,
mas ao seu lado desfaleceu a identidade

tentou se abrir mais uma vez,
não houve retorno e nem mesmo seu pulso era o mesmo

passou o tempo e nem com jeito teve
seu amor não diminuia pelo passado
já sabia que as cicatrizes do espírito não se fecham sem torpor

embriagado de falsa aparência e memória
buscou mais uma vez a calma e a paciência
não teve jeito
morria a cada pensamento













.

meu próprio capataz


Quando descobri que não daria mais certo já era tarde

A amada já desfizera sua presença em uma distância incerta
A abertura do coração já rasgava as doses de lirismo
E o tempo, mais pesado que nunca, dissolvia

Passava ao lado a mulher, o trabalho, a realização.
Uma passava doente, 
o outro surgia enfadonho, 
a terceira nunca chegava...

quando rompia a noite em nosso amor: as lágrimas,
mesmo se na madrugada o corpo dançava.
quando de manhã, a beleza se fazia em fotos
e na tarde já não nos entendíamos mais.

Deste ciclo de virtude e vicio a ferida não secou.
Sobrou a angustia do desejo de solidão
o sonho de uma totalidade sem fissuras
a pressa da satisfação e da tranquilidade.

quando descobri que já não era o mesmo já era tarde
já passava a noite em claro imaginando ela com outros
já sentia a saudade daquela que não existia mais
já nem me sentia mais nem sabia o que

dai que escrevi este escrito pois:
se um lamento não for dito é melhor que lhe de ouvidos
se uma presença já não se faz é melhor lhe entregar
se o sonho é o que não se realiza é melhor dormir em paz
e se a vida não mudar de face jeito ou voz mordaz serei meu próprio capataz...

















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rima pobre

o amor é como amora, hora aflora, hora vai embora....





.

para ofélia

e não percebias que era tu que devia dar-lhe a facada?
para livrar-te das amarras do ventre em pão
partilhada como um fantasma de teu merecimento?
mas tu, nada disse, e morreu em fantasia ao cair da noite.








ps: escrito após o poema de Marta Soares, que também indicou a foto da virginal
 "Para Ofélia...

Algo que dissesse tudo
sobre o que jamais saberei
para não ter que dizer mais nada
mas as palavras emudeceram esvaidas
para sempre?"


(marta soares)

linhas retas







linhas retas
só os homens e as aranhas










.

mar de amor


amar o mar
o mar amaro

tem sido o mote 
amor tecido


a rama o aro
o ar vestido

amar te morte
domar tem sido

amor aroma
vertido em marte

um tema ardil
um marco roma

na cama inflama
amora e lama 

um mar de amor
um raro em chama


demora amar
namora a ama 

na mama rara
rimar me amarro.

então que morra!
ramo mordaz!

morar de amor?
já morre e clama! 








.

Semântica


Amor antes fosse substantivo,
substitutivo das dores de um verbo...

Amar onde transitam flores
distintivo direto e reto

ao cercá-lo é melhor queimá-lo
façamos sem intrincar-se

os fetos inócuos despedaçarão,
mas deles ardores indiretos: nunca cessarão.










.

beleza humana

de perto
bem de pertinho

      ninguém é bonito








.

tempo de tartarugas

amontoadas na pedra do rio
com perfil abraçado na beira do sol
algumas tartarugas na esteira temporal...

eu rio,
     perfil ocultado,
                            beira de matagal.

Mas eis que desastrada esvanece
e amonte e abraço
o casco na beira estremece

                                    é´steira da morte!

o bixo virado com patas às preces
sofrerá por dias a fio
até que se cumpra e cesse.

seu tempo tôrtogo e duradouro
já não lhe acompanha mais,
e como nos anos solares,
os abraços do sofrimento se oferecem.

ao seu lado passa um rio
desta água simbolo da vida
idéia de verdade temporal
expõe que a vida nos padece...

                       mas quem sabe?

 se o rio cheio viesse
tão logo a desvirada  tartaruga rejusvelhece.

                   eita coisa boa!

mergulhada em sua sobrevida
vira ruga na memória que logo floresce.

                      os tempos se abraçam...

                                  todo aquele templo natural:
                         árvores, patos, bichos do lamaçal...
já o homem passa rapidamente em seu auto-naval.

sublime natureza!
quanto ainda há de nos ensinar?













.

duas torres


Frente a mim tenho duas torres gêmeas
Por entre delas as nuvens se entrelaçam
Umas negras ameaçando a chuva forte
Outras ainda brilhando o reflexo do sol

Entre as torres também passa um papagaio
Mistura de bicho e pau papel
Ele voa com sua rabiola fazendo entrecorteios
Cantando o som silencioso de seu oscilar

Por toda parte vejo também peões:
De arma em punho
fazem a força atual.
De lápis em punho
fazem as leis atuais.
na noite, todos dormem.

Passa a cavalaria, passa a bispaida
Passa a bola, espira o valete, um lance de dados
Jamais se repete, jamais se repete
"nunca mais!"

Entra então a rainha toda diferente
corta as cabeças astutamente
e ao rei lento que é ,
é xeque sem ver o olé!

Mas lá estão as duas torres
e ao rei é que elas servem.
Com o império protegido
Contra-ataque desferido!

Multiplicam se as torres
E já estamos num labirinto
As vezes quadriculado
As vezes verde e riscado.

Uns fracassam e por ali ficam mortos
Outros resistem mas não têm a astúcia
Poucos virtuosos acham os macetes
e vitorioso, um só vai ao pódio.

Vejo novamente as duas torres frente a mim
tudo o mais esta escuro

Vitoriosas, houve tempo em que ruiram em partidas
mas hoje o rei ainda tem a seu lado os famados gêmeos pródigos,
não se abalam as estruturas e sua guerra perpetúa. 

é começo do fim e continua
o jogo parou e não é fim de partida.
















.
.

sou nada e quase prosa

voce que me lê também não o é

o esquecimento mútuo é inevitável

seguimos imersos na mistura de sonho e memória

descemos rio, letra, tempo abaixo na espiral que deriva.

3 gerações – quem são meus antepassados?
100 anos – quantos milhões de desconhecidos?

Chuva, gelo, sol , bombas tudo apagam,
resta o resto.

como folhas de uma árvore
nascemos com a luz
voamos em redemoinhos,
furamos o barro,
boiamos no rio
e ao fim,
dissolvemos.

isso tudo você também
mas principalmente eu

pois eu
mais que ninguém
sou nada

minha vida é cicatriz
meus erros são a regra
meus amigos nada duram
minha família não existe
minhas obras são horríveis
nem quero ter filhos pois sei que eles nada serão.

“danada! O que importa é viver, seguir!” – diz o entusiasta extasiante.

Pois que morra cansado de ser feliz,
feliz eu nunca serei,
mesmo tendo que ser até a morte.

resta a angustia,
desespero, tropeço,
atropelo violento
do girar da terra que em roxo e musgo
dá vertigem e destrói.

Sou nada

mas nem os históricos, nem os famosos de 15 minutos
essas estrelas
elas são puro passado frágil de memória e calor
não são perenes
nenhuma constelação.

Sabe qual é o seu signo?
Única previsão?

a morte, o sofrimento, o fim.

assim vemos que nada importa
se vai melhorar
se vai piorar

tudo nos é indiferente.

De que valhem estas letras?
E este sentimento que nos toca?
E se nem o sentimento vier?

o câncer corroe as estruturas
e o sêmem da terapia química nada mais semeia
e mesmo diante daquilo que mais preenche
daquilo que menos assusta,
aquele absurdo da energia que nos faz abrir os olhos
logo, cessa, cerra, e desaparece.

Mas existe o eletro choque, ressuscita!
Cardiograma, rivotrill, placebo, adrenalina

Sou tudo de novo!
Vida eterna! Me cure!
Eu quero tudo! Quero ser feliz!
todos os prazeres, todos os cheiros
as emoções, os batimentos viscerais do coração
que palpitam até a testa jugular
sangue jorrando, lagrimas de sal
vestidos de cetim, confetes
carnes, frutas, os verdes, tudo!
Quero o melhor sexo,
as melhores poesias, melodias,
os melhores livros, as melhores historias,
os sorrisos, dinheiro, os amigos, a família, meus filhos!
Ah! Meu filhos serão lindos!
Grandes, fortes, sábios, astutos, importantes!
Eu desejo tudo isso!
desejo para você também!
O cálice cheio deusa da fortuna!

Sou tudo!
sei disso, e você também.

mas que ventos são esses que a roda me apresenta?

até agora nada de remédio, de paraíso, de felicidade.

a serpente me engolfa o pescoço e estrangula a esperança
espreme sem injetar o veneno
e lentamente os olhos viram
o torpor invade a pele pelas narinas
a baba em fio esquenta as escamas,
o mijo que escorre pela roupa
e as tripas pelas frestas
enchem o cálice não de vinho mas de corrimento.
e passados alguns suspiros de agonia,
a morte.

Lentamente a serpente se aproxima da cabeça pendida e úmida de suor.
Roça suas narinas no couro cabeludo
abre a mandíbula e engole
os ácidos então corroem tudo
e logo voltamos de onde partimos, o nada.

tempos passados, o reptil bota um ovo
Húmus, ossos, dentes, pelos, sem nenhuma memória
Nenhuma palavra
envolvidos por uma casca branca vimos semi-vivos!

Isso principalmente eu, mas acho que você também.

Reconhecendo o limite de tudo que aqui me propus a dizer
sei que nada digo
de novo
que me torne astuto, soberbo, importante!
pois é tudo vão e sem poesia
tudo falsidade e orgulho.

sou nada
assim qualquer
e agora lhe poupo dos meus morreres pois deves ter mais o que fazer nesta vida.
Não lhe julgo, pois condenados não tem autoridade.
Sou nada
e você merece muito.

você é tudo.
para sempre.















.

amores antigos

1.o amor é paixão sedimentada no tempo






2.um amor sem espinhos
é como uma rosa sem cheiro






















.

paisagem ao espelho (experimento a partir de herberto helder)

-versão original-

e a noite amanheceu molhada
e o sol como lua sorria ao horizonte
galos e pássaros e cães já fanfarilhavam
eletrólebus acústicos esculpiam as nuvens

fora quente a noite
o suor desceu por testas cores frestas
mas amanhã amanheceu molhada
o nariz pingando
úmida as partes muitas as partes
e sob as arvores um momento
os vivos assistiam TV em praça pública
os mortos soavam a viola e vendiam roupas ao léu
bem brega, bem bosta que não desce ou
merda molhada que borra
e espirra a falta de água no motor de nosso mundo
a bolsa amanheceu uma correnteza
e os capitalistas entristeceram com tal fluidez
os artistas sem tempo sincopavam frescamente
tudo belo e encantador
festa , festim, PUM!

- versão experimento -

a noite encantava frescamente
o sol como o belo,sem tempo , sincopava tristemente.
os capitalistas, os cães, já acústicos, esculpiam o motor
e as nuvens espirravam o amanhecer.

fora a festa aos artistas
com a TV em praça publica que descia na testa
com a manhã que anoiteceu em bosta
merda molhada PUM.
bregas as partes e nada desce
mas sob a viola num momento de nosso mundo
a bolsa já vendia roupas em falta dágua
tudo bem morto,
mas quente e úmido
e sem cor nem frestas.
os eletrolebus com tal fluidez fanfarilhavam
e sem tempo declaravam a noite molhada
que sorria ao horizonte
festim como lua.


















.

.estilhaço

desde então
todas as noites
o vidro espatifou no chão

o estilhaço repetiu-se
noite a noite

imputou a busca torta
na qual a chuva veio
gelou
apaziguou

como leite derramado
toda nossa memória surgia ali,
numa casa em que chuvia rio abaixo
sempre...

chovia sempre naquela casa,
pois as moças beijavam-se entre as pedras
os morcegos iludiam durante a noite
os amigos dançavam ao som de zoroastros
Sim! Os amantes da experiência!

mas acorde,
isto não é um sonho .

a casa morta
em que a música selou a infância e a velhice
não tinha teto
não tinha nada
não existia mais nem aos bobos...

e assim o silencio e o vazio preencheram todos os sentidos
como a água que agora corria sem ruir
e veia abaixo
sem chiar
amor-tecia...

mas mesmo assim
como uma bomba
anunciou-se um estrondo em relâmpago,
um bradar da lua e marte, que laranja e azul,
entre as nuvens mostrou seu olhar:
dança que o corpo escorre!

derivei,
e a noite tratou logo imputar a tarefa:
danças comigo? úmido contigo?
em reverência
logo cadenciei
mas da pirueta escapou o passo
e longe rindo ela se distanciou...

nada
vazio
e o vento

a chuva molhou de novo meu caminho
as gotas gelaram como cacos
aços
escorreguei dançando um tango sozinho
e mão estúpida inadvertidamente derrubou e partiu...

com raiva e admiração recompus aquele estilhaço
que como o corte, garoou vermelho...

será que desde então é tarde demais?

o tempo sobre as feridas não cicatrizou
o mordente de pátina não sustentou.

assim,
sozinho,
adormeci profundamente,
e abracei o fragmento amortecido.






























.

Encontro

.

Ontem, mesmo distante, dancei festa junina com voce a noite toda.
esquenta a fogueira do meu coração.

hoje te vi pelas esquinas.























.

chuva e amor

hoje acordei antes do tempo,
era noite ainda,
chovia.

meu corpo molhado
quente ouvia da cama
atento

logo o ruído cessou.

lembrei do amor
você de costas na beira da cama
numa noite escura,
molhada,
chovia.

e levantei para o dia...






.

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